Consumidor prefere gastar mais em produto melhor.
Os consumidores estão investindo agora em produtos que agreguem valor à qualidade de vida, mesmo que isso impliquem em preços mais altos. Isso depois de um bom tempo enchendo o carrinho de supermercado como nunca e levando para casa produtos antes considerados supérfluos.
A melhoria da renda, inflação sobre controle e maior oferta de crédito provocaram as mudanças nos critérios de consumo das famílias brasileiras nos últimos anos.
"Preço baixo está perdendo importância como fator número um na hora de o consumidor escolher os produtos nos supermercados. Hoje ele avalia a relação custo/benefício do produto.
E, com mais folga no bolso, quer experimentar as novidades", constata Christine Pereira, diretora da Kantar Worldpanel (ex-LatinPanel).
A empresa realizou, em todo o País, uma pesquisa que revela que os experimentadores e os apressados, que não elegem a economia como prioridade número um na hora das compras, já constituem os maiores grupos de compradores de bens de consumo não duráveis no Brasil.
O levantamento mostrou que quase a metade dos domicílios tem como prioridade, hoje, experimentar novos itens (23%) e rapidamente se livrar da incumbência de abastecer a dispensa (23%), esses os consumidores apressados. O grupo que só tem olhos para preço baixo e promoção responde atualmente por 18% das famílias. Há dois anos, havia um empate técnico entre os três grupos, em 20%. Agora, os experimentadores estão ganhando terreno em detrimento do grupo que só olha preço, de acordo com a Kantar Worldpanel. "O brasileiro, depois de afastados os fantasmas da crise de 2008 e 2009, se deu ao luxo de gastar mais com produtos mais caros", observa Christine Pereira.
Qualidade
A bancária Magda Calil de Menezes, casada e mãe de duas filhas, disse que não se incomoda em pagar mais caro por produtos diferenciados e de melhor qualidade. "O que gasto a mais na compra desses produtos, economizo com remédios", compara. Ela se dá ao luxo de adquirir verduras orgânicas, como um pequeno maço de rúcula, que custa R$ 2,79, enquanto a cultivada pelos métodos tradicionais, que é ofertada em maior quantidade, por exemplo, sai por R$ 1,99.
Também passaram a integrar a cesta de compras de Magda outros produtos naturais, como granola, linhaça, arroz integral, trigo e alguns outros cereais, que antes eram desprezados. De acordo com a bancária, o preço é fator importante na hora de optar por determinado produto, mas que com a melhoria da renda, a qualidade dos produtos, a rapidez e praticidade ganharam importância como critério de escolha.
A tradutora Elisa Drummond, casada e mãe de três filhos, é outra consumidora que reconhece que a importância de preço baixo já foi maior. "Ainda comparo os preços dos produtos. Mas quando já provei algum e testei sua qualidade não abro mão, mesmo tendo de pagar mais caro, pois ganho na agregação de valor", conta Elisa. Ela revela que, nas compras do mês, sempre procura levar produtos novos e diferentes, como um arroz especial para fazer risoto, geleias e chá importados, e um tempero mais sofisticado. Mas Elisa afirma que não abre mão de alguns produtos de marcas já testados, como sabão em pó, achocolatado, arroz e sabonete. "Eles são até mais caros, mas a qualidade melhor garante maior rendimento."
Agregar
A dona de casa Ana Maris Queiroz confirma que quando o produto tem maior qualidade, geralmente custa mais caro, mas o consumidor ganha no rendimento. Contudo, ela garante que é possível adquirir produto de boa qualidade por preço menor. E recomenda aos consumidores a optarem sempre por frutas da estação, que custam menos, e a pesquisarem os preços. Na época da inflação alta, a aposentada Maria Aparecida Borges fazia questão de buscar promoções e substituía marcas caras por aquelas mais baratas. Agora, ela diz que prioriza levar para casa produtos de qualidade, que ajudam no seu bem estar, como óleo à base de girassol ou milho e um adoçante mais natural. "Lá em casa só entra frango e ovos caipiras, que não são produzidos com produtos que têm agrotóxicos ou hormônios", conta ela.
O gerente regional da rede de supermercados Bretas, Alex Marçal, percebe que, além de preço justo, cresce a preocupação dos consumidores com a oferta de produtos de melhor qualidade. Por isso, segundo ele, à medida que aumenta a demanda por determinados produtos, como as verduras orgânicas, a empresa procura aumentar o mix de oferta e busca novos fornecedores, até como forma de fomentar a concorrência e baixar preço. Alex Marçal observa que sempre que o supermercado expõe produtos diferenciados há boa aceitação por parte dos consumidores.
Mais espaço para o que não é básico
Os produtos não-básicos ocupam cada vez mais espaço nas cestas de compras dos brasileiros. É o que mostra a pesquisa da Kantar Worldpanel, realizada em todo o Brasil. De acordo com a diretora da empresa, Christine Pereira, cerca de 500 mil famílias que não costumavam comprar iogurtes, sorvetes, salgadinhos, por exemplo, passaram a fazê-lo. Mas a participação de itens tidos como básicos, como arroz, feijão e batata, foi mantida. A pesquisa mostra que o consumo geral, tanto de produtos básicos e não-básicos, aumentou 13% em quantidade nos primeiros meses deste ano na comparação com igual período do ano passado, e 15% em valor. Outro dado que reforça a tendência de maior sofisticação das compras é a participação das marcas no valor da cesta de consumo. Em 2004, as marcas mais caras estavam presentes em 23% das cestas e, no ano passado, essa fatia atingiu 35%. Em compensação, as marcas de médio e baixo preços diminuiu no período. Há seis anos, as marcas médias respondiam por 47% das compras nos carrinhos e, em 2009, por 38%. As marcas de baixo preço tinham 30% de participação nas cestas em 2004 e recuaram para 27% no ano passado, de acordo com a pesquisa da Kantar.
Em Goiânia, de acordo com pesquisa da Ipsos/Marplan, feita a pedido do POPULAR, mostra que 1,43 milhão de pessoas passaram pelos supermercados da capital no último mês. Elas gastaram, em média, R$ 530,00, e 33% têm o costume de ir mais de uma vez por semana às compras. Os horários preferidos da maioria dos consumidores é no fim da tarde, entre às 16 e 18 horas, ou pela manhã, das 9 às 13 horas, sempre de segunda à sexta-feira.(Sônia Ferreira)
Mudanças são observadas em pesquisas
As mudanças dos hábitos de consumo dos brasileiros, que apontam agregação de produtos diferenciados e até mais caros, vêm sendo acompanhadas pelas empresas que fazem pesquisa de consumo, inclusive pelo governo, através da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O gerente de Indicadores Econômicos e Sociais da Secretaria estadual do Planejamento (Seplan-GO), o economista Marcelo Eurico de Souza, disse que, desde a estabilização da economia em 1994, os consumidores que ganham de um a cinco salários mínimos (R$ 510,00 a R$2.550,00) passaram a gastar mais e levar para casa mais produtos, até mesmo aqueles que antes só entravam na casa dos mais ricos.
Agora, na estrutura de cálculo do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) atualizada em 2006 com base na POF de 2003, estão incluídos produtos como cortes de carne de primeira qualidade, queijo tipo mussarela, presunto, iogurtes, frutas diversificadas, artigos do mobiliário e até mesmo vitaminas.
Segundo Marcelo Eurico, o aumento da renda das famílias, ocorrido nos últimos anos, proporcionou o acesso ao consumo de produtos diferenciados. "Agora, mais pessoas colocam o produto no carrinho sem olhar preço, e a tendência é que mais consumidores passem a adotar essa estratégia", prevê o economista. Contudo, ele lembra que o consumidor está mais atento à qualidade, ao prazo de validade da mercadoria, e compra o seu custo/benefício.(SF)
* reportagem veiculada dia 11/07/10 no Jornal O Popular, Goiânia-Go.
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